O que permanece quando
a forma se transforma
No erriá, o design de mobiliário não surge de uma necessidade de preencher o espaço, mas de entendê-lo. De perceber o peso, o toque, a temperatura, e traduzi-los em forma. Cada peça nasce como extensão da arquitetura, como parte de um mesmo pensamento que atravessa escalas: do corpo à casa, da estrutura ao detalhe.
O objeto nasce dessa mesma inquietação em compreender a matéria e transformá-la em presença. O processo é quase coreográfico. Há o desenho, o corte, o encaixe, a pausa. Aqui, se faz do gesto humano permanentemente visível, concretizando a rotina de quem vive ao seu redor. Essas investigações, da forma que se dobra à textura que acolhe, formam o fio condutor que atravessa toda a produção de mobiliário do estúdio: o design como pensamento em movimento.
É nesse intervalo entre matéria e gesto que o erriá encontra seu campo de experimentação: criar objetos que pensam o espaço e espaços que acolhem o objeto, como o Canguro, que une suporte e presença em uma só superfície de armazenamento, intrinsecamente ligada à rotina diária de quem habita o espaço. O mobiliário, aqui, existe para promover uma convivência silenciosa entre o útil e o sensível, e cumpre não apenas o papel de armazenamento e suporte a itens cotidianos, como também atua como redutor acústico. Seu formato almofadado com tecido volumoso promovem a concentração mesmo em locais transitórios.
É um móvel que se assemelha a um quadro, com bolsos mimetizados (como a bolsa de um canguru) que tomam forma pela interação do usuário. Seja em um quarto, sala, entrada de casa ou quarto de hotel, o Canguro se transforma conforme o gesto de quem o utiliza. A ideia nasceu da necessidade de um objeto que transitasse entre diferentes contextos e demandas cotidianas, uma resposta pós-pandêmica às rotinas híbridas, móveis e funcionais.
Em contraponto, a Cadeira Rubrica existe da relação entre estrutura e tecido. Um não se sustenta sem o outro. A estrutura, sozinha, não conforma uma cadeira; o tecido, sem o suporte nos ângulos certos, é apenas superfície em repouso. Juntos, revelam um equilíbrio entre o necessário e o sensível.
O desenho convida o olhar a imaginar o que se esconde sob o revestimento: uma armação contínua, que se conecta de ponta a ponta, mas permanece oculta. Há um jogo de percepção em que a a cadeira se mostra inteira, mesmo quando parte dela se mantém invisível. Há um desejo em imaginar o que se esconde por trás, em completar a imagem com o olhar.
A escolha do acabamento em tecido não é acaso: a cadeira foi projetada com fechamento em zíper para permitir a limpeza e a troca do revestimento conforme a necessidade do usuário. O zíper, propositalmente maior e sobressalente, desperta a vontade de desmontar a peça, ainda que o gesto de desfazê-la a privasse de sua função.
Por fim, uma almofada garante conforto e suporte, com densidade mínima para manter o tecido esticado e o formato preciso. O revestimento da almofada, ligeiramente distinto do corpo da cadeira, introduz uma bossa discreta. A peça pode ser personalizada em diferentes cores e acabamentos dentro de uma paleta predefinida, com combinações em nuances próximas, para valorizar a transição entre tecido, assento e estrutura, sem romper a harmonia do conjunto.
Ao longo do ano, seguimos expandindo nossa exploração espacial nas fronteiras entre mobiliário e arquitetura, entre o objeto e o espaço construído. Dessa investigação, surge a Cadeira Aiciú, que propunha o desafio de projetar um mobiliário híbrido e transformável para pequenos espaços.
A Aiciú nasce da observação das rotinas e da percepção emocional dos usuários em relação ao espaço, um olhar atento às pequenas ações que revelam nossas necessidades de conforto, organização e pertencimento. A peça propõe um lugar que acolhe, armazena e organiza os pertences que nos acompanham no dia a dia, concebida a partir da observação de um gesto quase inconsciente, o ato de apoiar os objetos pessoais ao sentar-se.
Seu nome nasce de um jogo de geometrias e sentidos: Aiciú deriva das letras “I C U”, formas que guiaram o desenho da peça e que, em inglês, significam “I see you” (“eu vejo você”).
Essas três experiências (Rubrica, Canguro e Aiciú) compõem uma mesma linha de pensamento: o design como modo de pensar uma prática que investiga, observa e transforma. Esse raciocínio, que entende o objeto como origem do espaço e a matéria como pensamento em construção, prepara a passagem para o próximo capítulo.
Esse pensamento se materializa, também, no Showroom Leon Ades, espaço concebido em parceria com o designer e marceneiro de mesmo nome, cuja obra une técnicas milenares de marcenaria a uma linguagem contemporânea do design. Conhecido por criar móveis autorais que equilibram precisão e fluidez, Leon compartilha com o erriá o mesmo olhar sobre o tempo do fazer e a permanência da matéria.
O espaço, recém inaugurado, foi concebido a partir de uma demanda por dinamismo: criar um percurso que convida o visitante a circular, descobrir e permanecer. O projeto se estrutura num grid triangular em todos os seus eixos, permitindo que luz e sombra, caminho e processo, reflitam nas paredes e criem fluidez. O espaço se revela em camadas. Suas conformações desenham o caminho, e o olhar é guiado por volumes, não por barreiras.
A planta se estrutura em módulos que podem ser reorganizados de acordo com a demanda do negócio, em um sistema que transforma o espaço em organismo vivo e produtivo. É uma arquitetura que pensa o mobiliário como parte do fluxo e como extensão da arquitetura.
Pode-se dizer que esse showroom é, afinal, um ensaio sobre o movimento: sobre como o espaço se adapta, muda e recomeça. Assim como nas peças do estúdio, cada escolha construtiva revela um pensamento de continuidade entre matéria e tempo, entre o que se projeta e o que se habita.
Em breve, novos desdobramentos desse olhar sobre o espaço e o objeto.







